quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Restos do Carnaval - Clarice Lispector

            Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
            No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - à idéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.


in "Felicidade Clandestina"
Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998.
Clarice Lispector
(Ucrânia, 1925 - Brasil, 1977)

domingo, 3 de outubro de 2010

Encontro de sábado, 02 de Outubro de 2010.

Sobre o conto Restos do Carnaval, de Clarice Lispector.
            O grupo Desimpressões (batizado, neste sábado, por Edmarcia!) reuniu-se novamente, dia 02, véspera para às eleições, na moradia estudantil da UNESP. Foi o terceiro, ou talvez quarto (há controvérsias) encontro. Falta texto de apresentação. Boa vontade não faz milagres! A ideia de nos reunirmos para discussões e troca de informações sobre temas variados é recente. Tão nova quanto os três encontros que organizamos. De qualquer forma, isso não muda a qualidade do que vimos, e , de certa forma, alimenta a ânsia em apresentarmos a bagunça. Eis o blog!

Primeiras desimpressões compartilhadas, e agora relatadas, sobre Clarice Lispector.

            O grupo tomou como primeiro conto Restos do Carnaval, do livro Felicidade Clandestina, originalmente publicado em 1971. Não seguimos nenhum esquema, até então, para escolha do que será analisado. Clarice, assim como, o restante do que vimos, surgiu como sugestão. É um ponto importante quanto à didática que utilizamos (ou tentamos montar). A ideia, talvez possa falar por todos, é a criação de uma espécie de método que una o proveitoso ao agradável. Sobre esta questão, espero elucidarmos, em um texto sobre o grupo e assinado pelo grupo. Texto o qual, como foi dito, está para nascer e ser desimpresso!


Nossas Desimpressões:

            O início do conto trás um tom de recordação. Uma sensação de ressaca, sendo que o grupo arriscou o palpite de que a história era contada em uma época de carnaval, isto pelo começo: "Não, não deste último carnaval". Ideia reforçada sabendo-se da quaresma como um momento de reflexão. A agitação íntima, característica típica de personagens de Clarice Lispector, aparece logo de início, quando a narradora espera ansiosa pela chegada do carnaval. O prazer secreto, descrito pela personagem na frase: "Carnaval era meu, meu", dita enquanto observava a festa que atravessava as ruas de Recife era  tão latente  que pensamos que este trecho sintetiza seu sentimento intrínseco. A relação com o ambiente familiar, ou doméstico, comum também nas obras da autora, aparece no conto como opressivo. A narradora fala da condição vulnerável de criança (enquanto explica a situação da mãe); o descaso pelo universo infantil "Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança".
            Quanto à relação entre a criança e a família contida na história, o que nos chamou a atenção também, é a suspeita da personagem de que o rosto humano também fosse uma máscara. E narra o encontro com as máscaras de carnaval como algo que lhe remete a entrar em contato com seu mundo interior. Essas observações sobre à autenticidade do que se vê, pensamos ser, algo estudado na própria família, ou em pessoas próximas. A narradora deixa claro sua insatisfação com a condição de criança. Queria mesmo participar, de fato, do carnaval. E fantasiada, como quem foge desta condição. Vê isto como oportunidade de ser outra, que não, ela mesma. O significado da Rosa foi muito discutido. A forma da fantasia, de acordo com a narradora, de uma rosa com às pétalas abertas, seria uma tendência desta a ter visto isso, ou realmente era este o formato? O jogo, comum para Clarice Lispector de objeto e sentimento, na impossibilidade de igualar o dizer com o sentir, traria a Coisificação, ou adesão, da rosa? A ideia de desabrochar, tendo a relação da rosa com alguém que, por fim, sente-se percebida, no episódio do encontro com o garoto.
            A preocupação das amigas com a chuva, ou outro imprevisto que danificasse as fantasias, cria uma relação de medo da nudez. A característica de Clarice Lispector em fazer com que as personagem lancem um olhar mágico sobre as coisas, de forma que este desdobre-se, ou entre em um abismo íntimo, para ter contato com o desconhecido, e ainda, questione o que é estranho, produz receio nas personagens. De forma, que o medo de ficarem nuas, vá além, do nu físico. A passagem que vai da piora da mãe, até o fim do penúltimo parágrafo, trás a reflexão silenciosa da personagem, que mergulha em direção a sentimentos desconhecidos "A alegria dos outros me espantava",  em um conflito de náusea e fascinação. Náusea devido à ineficácia, para o propósito esperado pela narradora, da fantasia. E fascinação na fome de sentir êxtase.
            A corrida da garota vestida de rosa, é interpretada como uma explosão, que a desligaria do universo até então conhecido por ela. Uma fuga, ilustrada pela corrida, como uma afirmação de sua individualidade. Este conglomerado de sentimento cria o clímax da narrativa, que tem seu desenrolar com a chegada do garoto, e reconhecimento da personagem, como uma rosa. Atenção para o fato da palavra  do rosa, estar em itálico, durante quase toda a história, mudando somente no fim do texto.
            Restos do carnaval. O texto é a narrativa de memórias, ou talvez restos? Uma impossibilidade de felicidade em plenitude,  "O destino é irracional? É impiedoso." Uma mudança tão significativa, essa experiência, para a personagem, que o carnaval lhe deixou,como herança resquícios, ou restos?