Sobre o conto Restos do Carnaval, de Clarice Lispector.O grupo Desimpressões (batizado, neste sábado, por Edmarcia!) reuniu-se novamente, dia 02, véspera para às eleições, na moradia estudantil da UNESP. Foi o terceiro, ou talvez quarto (há controvérsias) encontro. Falta texto de apresentação. Boa vontade não faz milagres! A ideia de nos reunirmos para discussões e troca de informações sobre temas variados é recente. Tão nova quanto os três encontros que organizamos. De qualquer forma, isso não muda a qualidade do que vimos, e , de certa forma, alimenta a ânsia em apresentarmos a bagunça. Eis o blog!
Primeiras desimpressões compartilhadas, e agora relatadas, sobre Clarice Lispector.
O grupo tomou como primeiro conto Restos do Carnaval, do livro Felicidade Clandestina, originalmente publicado em 1971. Não seguimos nenhum esquema, até então, para escolha do que será analisado. Clarice, assim como, o restante do que vimos, surgiu como sugestão. É um ponto importante quanto à didática que utilizamos (ou tentamos montar). A ideia, talvez possa falar por todos, é a criação de uma espécie de método que una o proveitoso ao agradável. Sobre esta questão, espero elucidarmos, em um texto sobre o grupo e assinado pelo grupo. Texto o qual, como foi dito, está para nascer e ser desimpresso!
Nossas Desimpressões:
O início do conto trás um tom de recordação. Uma sensação de ressaca, sendo que o grupo arriscou o palpite de que a história era contada em uma época de carnaval, isto pelo começo: "Não, não deste último carnaval". Ideia reforçada sabendo-se da quaresma como um momento de reflexão. A agitação íntima, característica típica de personagens de Clarice Lispector, aparece logo de início, quando a narradora espera ansiosa pela chegada do carnaval. O prazer secreto, descrito pela personagem na frase: "Carnaval era meu, meu", dita enquanto observava a festa que atravessava as ruas de Recife era tão latente que pensamos que este trecho sintetiza seu sentimento intrínseco. A relação com o ambiente familiar, ou doméstico, comum também nas obras da autora, aparece no conto como opressivo. A narradora fala da condição vulnerável de criança (enquanto explica a situação da mãe); o descaso pelo universo infantil "Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança".
Quanto à relação entre a criança e a família contida na história, o que nos chamou a atenção também, é a suspeita da personagem de que o rosto humano também fosse uma máscara. E narra o encontro com as máscaras de carnaval como algo que lhe remete a entrar em contato com seu mundo interior. Essas observações sobre à autenticidade do que se vê, pensamos ser, algo estudado na própria família, ou em pessoas próximas. A narradora deixa claro sua insatisfação com a condição de criança. Queria mesmo participar, de fato, do carnaval. E fantasiada, como quem foge desta condição. Vê isto como oportunidade de ser outra, que não, ela mesma. O significado da Rosa foi muito discutido. A forma da fantasia, de acordo com a narradora, de uma rosa com às pétalas abertas, seria uma tendência desta a ter visto isso, ou realmente era este o formato? O jogo, comum para Clarice Lispector de objeto e sentimento, na impossibilidade de igualar o dizer com o sentir, traria a Coisificação, ou adesão, da rosa? A ideia de desabrochar, tendo a relação da rosa com alguém que, por fim, sente-se percebida, no episódio do encontro com o garoto.
A preocupação das amigas com a chuva, ou outro imprevisto que danificasse as fantasias, cria uma relação de medo da nudez. A característica de Clarice Lispector em fazer com que as personagem lancem um olhar mágico sobre as coisas, de forma que este desdobre-se, ou entre em um abismo íntimo, para ter contato com o desconhecido, e ainda, questione o que é estranho, produz receio nas personagens. De forma, que o medo de ficarem nuas, vá além, do nu físico. A passagem que vai da piora da mãe, até o fim do penúltimo parágrafo, trás a reflexão silenciosa da personagem, que mergulha em direção a sentimentos desconhecidos "A alegria dos outros me espantava", em um conflito de náusea e fascinação. Náusea devido à ineficácia, para o propósito esperado pela narradora, da fantasia. E fascinação na fome de sentir êxtase.
A corrida da garota vestida de rosa, é interpretada como uma explosão, que a desligaria do universo até então conhecido por ela. Uma fuga, ilustrada pela corrida, como uma afirmação de sua individualidade. Este conglomerado de sentimento cria o clímax da narrativa, que tem seu desenrolar com a chegada do garoto, e reconhecimento da personagem, como uma rosa. Atenção para o fato da palavra do rosa, estar em itálico, durante quase toda a história, mudando somente no fim do texto.
Restos do carnaval. O texto é a narrativa de memórias, ou talvez restos? Uma impossibilidade de felicidade em plenitude, "O destino é irracional? É impiedoso." Uma mudança tão significativa, essa experiência, para a personagem, que o carnaval lhe deixou,como herança resquícios, ou restos?
Parabéns, moçada!
ResponderExcluirGostei bastante dos comentários iniciais sobre o conto. Algumas descobertas que mereciam um bloco de notas como esse, nos restos virtuais de uma internet mais carnavalizada pela presença de cada uma das vozes aqui presentes.
Boa próxima leitura e ansioso pelos futuros apontamentos!
Aquele abraço,
Paulo.